Por que os romanos usavam urina para lavar roupas? A surpreendente história das lavanderias da Roma Antiga
Imagine entrar em uma lavanderia da Roma Antiga. Em vez do cheiro familiar de sabão ou de produtos de limpeza, você provavelmente encontraria grandes tanques, trabalhadores pisando sobre tecidos e recipientes contendo um líquido que, para os padrões atuais, pareceria completamente inadequado para uma tarefa de limpeza: a urina.
A pergunta “por que os romanos usavam urina para lavar roupas?” pode parecer uma daquelas curiosidades históricas exageradas que circulam pela internet.
Entretanto, nesse caso, estamos diante de uma prática real, documentada por fontes antigas e confirmada por evidências arqueológicas encontradas em cidades romanas, especialmente em Pompeia.
Mais interessante ainda é entender que os romanos não utilizavam urina simplesmente porque desconheciam alternativas.
A prática fazia sentido dentro da tecnologia disponível naquele período. A urina envelhecida podia fornecer compostos alcalinos úteis para remover gordura e sujeira dos tecidos, especialmente da lã.
Além disso, essa história revela algo muito maior sobre a sociedade romana. Ela mostra como os habitantes do Império aproveitavam recursos que hoje consideraríamos resíduos, como funcionava uma lavanderia profissional, quem realizava o trabalho pesado e até como o Estado conseguiu transformar um produto descartado em fonte de arrecadação.
Portanto, entender por que os romanos usavam urina para lavar roupas é também uma maneira de compreender melhor a economia, a tecnologia, os hábitos de higiene e a vida cotidiana da Roma Antiga.
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| Imagem representativa. Em uma fullonica, trabalhadores romanos tratavam tecidos usando água, substâncias alcalinas e urina envelhecida (Acervo pessoal) |
As roupas romanas precisavam de limpeza constante
Para compreender essa prática, precisamos primeiro abandonar uma ideia comum: a de que os romanos simplesmente vestiam roupas sujas e não se preocupavam com higiene.
A realidade era bem diferente. A aparência das roupas tinha importância social. Togas, túnicas e outros tecidos podiam indicar posição, riqueza e status.
Uma peça limpa e bem cuidada transmitia uma imagem muito diferente de uma roupa manchada e desgastada.
A lã ocupava um lugar central no vestuário romano. O problema é que esse material podia acumular facilmente gordura, poeira e outras impurezas. Além disso, a vida urbana expunha as roupas a fumaça, alimentos, suor, terra e diferentes tipos de manchas.
Os romanos também valorizavam tecidos claros e bem acabados. Isso era particularmente importante entre pessoas de classes mais altas, para quem a aparência pública tinha enorme significado.
O problema era que lavar uma grande peça de lã não era tão simples quanto colocar uma roupa em uma máquina de lavar moderna.
Por isso surgiram profissionais especializados chamados fullones, geralmente traduzidos como pisoeiros, lavadores ou trabalhadores das oficinas de tratamento de tecidos. Suas oficinas eram conhecidas como fullonicae.
Esses estabelecimentos não funcionavam apenas como nossas lavanderias modernas. O trabalho podia envolver limpeza, desengorduramento, tratamento, acabamento, escovação e preparação dos tecidos.
Em outras palavras, uma fullonica era uma espécie de combinação entre lavanderia, oficina têxtil e estabelecimento de acabamento.
E é justamente nesse ambiente que a urina ganhou importância.
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| Imagem representativa. Em uma fullonica, trabalhadores romanos tratavam tecidos usando água, substâncias alcalinas e urina envelhecida. (acervo pessoal) |
Por que os romanos usavam urina para lavar roupas?
Agora chegamos ao ponto central da questão. A urina humana contém ureia. Quando permanece armazenada durante algum tempo, microrganismos podem transformar a ureia em compostos que aumentam a presença de amônia e a alcalinidade da solução.
A amônia é útil para determinadas tarefas de limpeza porque ajuda a remover materiais gordurosos. Por isso, a urina envelhecida podia ser empregada como parte de uma solução usada no tratamento dos tecidos.
Pesquisas modernas e experimentos recentes ajudam a explicar por que essa prática podia funcionar. É importante, porém, fazer uma ressalva.
Às vezes, a história é apresentada como se a urina fosse simplesmente um “sabão romano”. Isso é uma simplificação. As fullonicae utilizavam diferentes materiais e processos, e a composição exata das misturas podia variar.
Fontes e estudos arqueológicos mencionam, além da urina, substâncias alcalinas, água e diferentes tipos de terra utilizada pelos trabalhadores de tecidos. A chamada fuller's earth, por exemplo, podia contribuir para absorver gordura e sujeira.
Portanto, a melhor resposta para por que os romanos usavam urina para lavar roupas é: porque ela era um recurso acessível que, depois de envelhecer, podia fornecer propriedades químicas úteis para o tratamento dos tecidos, principalmente quando combinada com água e outros agentes.
Os romanos não conheciam a química da amônia da maneira como conhecemos hoje. Eles não precisavam conhecer a fórmula química para descobrir empiricamente que determinado líquido ajudava a limpar tecidos.
E essa é uma característica importante da tecnologia antiga: muitas soluções eram descobertas pela observação, tentativa e erro.
Como funcionava uma lavanderia romana
A existência das fullonicae é especialmente bem documentada em Pompeia.
A cidade, soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., preservou estruturas que permitem observar aspectos extraordinários da vida cotidiana romana. Entre elas estão oficinas de tratamento de tecidos.
A Fullonica de Stephanus, por exemplo, foi instalada em uma construção que originalmente tinha outra função. O espaço foi adaptado para receber grandes tanques e áreas de trabalho. A estrutura incluía recipientes destinados às diferentes etapas do tratamento dos tecidos. O processo era trabalhoso.
Primeiro, os tecidos eram colocados em recipientes apropriados. A solução podia conter água, urina envelhecida e outros materiais utilizados no tratamento.
Depois vinha uma das etapas mais impressionantes: os trabalhadores pisavam repetidamente sobre os tecidos.
Esse movimento não era simplesmente uma forma rudimentar de “bater roupa”. O pisoteamento ajudava a movimentar o líquido através das fibras e a desprender sujeira e gordura.
O escritor romano Sêneca chegou a fazer referência ao trabalho dos fullones e ao movimento associado ao pisoteamento dos tecidos. Representações encontradas em Pompeia também ajudam a reconstruir o trabalho realizado nessas oficinas. Depois da lavagem, os tecidos eram enxaguados.
Essa etapa era fundamental. Afinal, não faria sentido limpar uma peça e deixá-la impregnada com a solução utilizada durante o processo.
Na sequência, o tecido poderia ser seco, escovado e submetido a outros procedimentos de acabamento. Em determinados casos, tecidos brancos podiam passar por processos de branqueamento envolvendo exposição ao sol e tratamento com enxofre.
Portanto, a lavagem romana era um processo muito mais elaborado do que simplesmente jogar uma roupa dentro de um tanque.
A urina era coletada nas ruas de Roma
Mas existe uma pergunta ainda mais curiosa: de onde vinha tanta urina?
A resposta revela como os romanos transformavam resíduos urbanos em recursos econômicos.
Recipientes destinados à coleta de urina eram colocados em espaços públicos. As pessoas urinavam nesses recipientes e o conteúdo era posteriormente recolhido para utilização nas atividades profissionais.
Fontes antigas mencionam essa prática, e estudos sobre a infraestrutura das fullonicae mostram que a coleta de urina estava integrada ao funcionamento econômico das cidades romanas.
Em algumas situações, a infraestrutura urbana podia ser planejada para facilitar esse reaproveitamento.
Em Ostia, por exemplo, pesquisas arqueológicas identificaram um sistema no qual um mictório público estava conectado por uma tubulação a uma área associada a oficinas de tratamento de tecidos.
Isso demonstra que não se tratava necessariamente de uma prática improvisada, mas que o aproveitamento desse líquido podia fazer parte da infraestrutura urbana.
É justamente aqui que a história fica ainda mais interessante.
A urina não era vista apenas como algo que precisava ser descartado. Ela podia ter valor econômico.
Esse detalhe muda completamente a maneira como devemos enxergar a prática.
O famoso imposto sobre a urina
Um dos episódios mais conhecidos relacionados ao assunto ocorreu durante o governo do imperador Vespasiano, no século I d.C.
Segundo a tradição transmitida pelo historiador Suetônio, Vespasiano instituiu um imposto associado à coleta e utilização da urina.
O episódio ficou famoso porque o imperador teria defendido a cobrança mesmo diante das críticas de seu filho, Tito.
A tradição romana associou a esse episódio a famosa ideia de que “o dinheiro não tem cheiro”, embora a formulação popular seja uma simplificação posterior da história.
O ponto historicamente importante é que havia valor econômico no aproveitamento da urina, especialmente em atividades como o tratamento de tecidos e outros processos artesanais.
Isso demonstra algo fundamental sobre a economia romana.
Um material que normalmente seria considerado rejeito podia ser incorporado a uma cadeia produtiva.
Em vez de simplesmente desaparecer pelo sistema de esgoto, ele podia ser coletado, transportado e utilizado por trabalhadores especializados. O Estado percebeu essa atividade econômica e encontrou uma maneira de tributá-la.
Assim, a história da urina para lavar roupas também é uma história sobre impostos, comércio e reciclagem de recursos.
As lavanderias eram negócios importantes
As fullonicae ocupavam um espaço importante na economia urbana romana.
Pompeia oferece um excelente exemplo. Estudos sobre a cidade identificaram numerosas instalações relacionadas ao tratamento de tecidos, mostrando que a atividade tinha escala considerável.
Uma revisão acadêmica sobre a vida cotidiana de Pompeia menciona dezenas de fullonicae na cidade.
Isso significa que estamos longe de falar de uma prática doméstica isolada. Existia uma verdadeira cadeia econômica.
Alguém precisava coletar a urina. Outros trabalhadores transportavam o material. Os fullones realizavam o tratamento dos tecidos.
Depois, as peças precisavam ser enxaguadas, secadas, escovadas e eventualmente prensadas.
Consequentemente, o processo envolvia mão de obra, instalações, água, recipientes e conhecimento técnico.
Além disso, as oficinas atendiam clientes que precisavam manter suas roupas em boas condições.
A existência dessas empresas mostra que a limpeza de roupas podia ser uma atividade profissional especializada no mundo romano.
Isso também nos ajuda a compreender a urbanização romana.
Quanto maior a cidade, maior a necessidade de serviços especializados. O mesmo princípio que hoje encontramos em lavanderias, oficinas, restaurantes e empresas de manutenção existia, em formas diferentes, no mundo romano.
Quem realizava o trabalho pesado?
Outro aspecto que merece atenção é o trabalho humano envolvido.
As etapas mais pesadas da atividade exigiam esforço físico considerável. Os trabalhadores precisavam permanecer em contato com água, soluções de limpeza e tecidos durante longos períodos.
Além disso, o pisoteamento exigia força e repetição.
Em muitas oficinas romanas, parte significativa desse trabalho era realizada por pessoas escravizadas. Evidências arqueológicas e estudos sobre as fullonicae ajudam a reconstruir esse ambiente de trabalho.
Isso é importante porque, quando falamos sobre a tecnologia romana, existe uma tendência de imaginar apenas grandes obras como estradas, aquedutos e anfiteatros.
Entretanto, a tecnologia cotidiana também dependia de trabalhadores.
A limpeza de uma toga, por exemplo, não acontecia por mágica. Havia uma sequência de tarefas, conhecimento acumulado e pessoas responsáveis por executá-las.
Portanto, por trás daquela roupa branca usada por um cidadão romano existia uma cadeia de trabalho que podia envolver coleta de resíduos, transporte, lavagem, pisoteamento, enxágue, secagem e acabamento.
É um excelente exemplo de como objetos aparentemente simples escondem uma história social muito mais complexa.
A urina também tinha outras utilidades
Outro erro seria imaginar que a urina era usada exclusivamente para lavar roupas.
Ela podia desempenhar outras funções na indústria têxtil.
Fontes e estudos indicam seu uso como auxiliar em processos de tingimento e tratamento de fibras. Em determinados procedimentos, materiais alcalinos podiam ajudar na preparação dos tecidos e na fixação ou alteração de determinadas cores.
Além disso, fontes antigas registram outros usos da urina.
Plínio, o Velho, por exemplo, menciona diferentes aplicações de substâncias relacionadas à limpeza e ao tratamento de materiais.
Esse conhecimento não estava baseado em uma teoria química moderna. Era um conhecimento prático.
Os artesãos sabiam que determinado material produzia determinado efeito. O segredo estava em saber quando utilizar, em que quantidade e junto com quais outros materiais.
Isso nos lembra que a ciência não começa apenas quando alguém escreve uma fórmula em um laboratório.
Muito antes da química moderna, artesãos, agricultores, médicos e trabalhadores de diferentes áreas acumulavam conhecimento por observação.
O cheiro realmente desaparecia?
Essa é provavelmente uma das perguntas que mais despertam curiosidade.
Se roupas eram lavadas com urina, elas não deveriam ficar com um cheiro desagradável?
A resposta não é tão simples quanto dizer que “sim” ou “não”.
A urina utilizada no processo era submetida a diferentes etapas e, principalmente, os tecidos eram posteriormente enxaguados, secos e tratados.
Além disso, pesquisas experimentais recentes tentaram reproduzir o processo de lavagem das fullonicae. Um estudo publicado em 2026 testou urina envelhecida em tecidos de lã e observou que, após o processo de lavagem e secagem, não foi detectado odor residual na amostra analisada.
Isso não significa que podemos reconstruir exatamente o cheiro de uma lavanderia romana.
Existem muitas variáveis que desconhecemos: quantidade utilizada, tempo de armazenamento, concentração, temperatura, composição da água e outros materiais empregados.
Também é importante evitar transformar um experimento moderno em prova absoluta de que todos os tecidos romanos ficavam sem cheiro.
O que podemos dizer com segurança é que a prática era tecnicamente possível e que o processo incluía etapas posteriores destinadas a limpar e finalizar o tecido.
Não era apenas “lavar roupa suja”
Aqui está uma das maiores confusões sobre o assunto. As fullonicae não eram apenas lugares onde alguém levava uma túnica suja para ser lavada.
O trabalho de um fullo podia envolver diferentes etapas de preparação e acabamento dos tecidos.
O processo de fulling estava relacionado ao tratamento da lã e de tecidos, incluindo limpeza, desengorduramento e acabamento. Roupas usadas também podiam ser recebidas para limpeza.
Isso significa que o profissional tinha conhecimento sobre diferentes materiais.
Uma peça de lã recém-produzida não apresentava exatamente os mesmos problemas que uma toga usada durante semanas.
Da mesma maneira, uma roupa branca exigia cuidados diferentes de um tecido colorido. A oficina precisava, portanto, adaptar seus procedimentos.
Essa especialização ajuda a explicar por que as fullonicae eram estabelecimentos relevantes nas cidades romanas.
O que a arqueologia de Pompeia revela
Poucos lugares são tão importantes para compreender o cotidiano romano quanto Pompeia.
A cidade foi atingida pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., preservando edifícios, ruas, oficinas, objetos e inscrições que desapareceram ou foram profundamente transformados em outras cidades.
Entre esses espaços estão as lavanderias.
A Fullonica de Stephanus é particularmente interessante porque permite visualizar a organização física de uma oficina. Havia grandes tanques, áreas para pisoteamento, espaços para enxágue e locais destinados à secagem dos tecidos.
O mais fascinante é que a estrutura física combina com aquilo que sabemos pelas fontes literárias.
De um lado, temos textos antigos falando sobre os fullones e o uso de determinados materiais.
De outro, temos estruturas arqueológicas que mostram tanques e espaços compatíveis com diferentes etapas do trabalho.
Quando essas evidências se encontram, a história fica muito mais convincente.
Não estamos simplesmente repetindo uma anedota sobre romanos usando urina.
Estamos reconstruindo uma atividade econômica real a partir de diferentes tipos de evidência.
O que os romanos sabiam — e o que eles não sabiam
É tentador dizer que os romanos “sabiam que a urina continha amônia”. Mas essa afirmação precisa de cuidado.
Eles certamente conheciam, por experiência, os efeitos práticos de determinados materiais. Porém, não possuíam a compreensão moderna da microbiologia e da química que explica a transformação da ureia em amônia.
A ciência atual permite explicar aquilo que os romanos observavam empiricamente.
Quando a urina envelhece, processos bacterianos transformam a ureia, aumentando a presença de amônia e alterando a alcalinidade da solução. Essa química ajuda a entender suas propriedades de limpeza. A diferença é importante.
Os romanos possuíam conhecimento tecnológico, mas não necessariamente a explicação molecular por trás dele. Isso acontece frequentemente na história.
Durante milhares de anos, seres humanos produziram pão, vinho, cerâmica, vidro, ligas metálicas e corantes sem conhecer a ciência moderna responsável por explicar completamente esses processos.
O fato de não conhecerem a química da amônia não tornava a técnica irracional.
Pelo contrário: demonstra como o conhecimento prático pode preceder a explicação científica.
A história da urina revela uma Roma muito diferente
Quando pensamos na Roma Antiga, geralmente lembramos de imperadores, gladiadores, legiões, senadores e grandes monumentos.
Entretanto, a história da urina para lavar roupas nos leva para outro cenário.
Ela nos coloca diante de ruas movimentadas, oficinas barulhentas, trabalhadores realizando tarefas repetitivas, recipientes sendo abastecidos e roupas sendo levadas de um estabelecimento para outro.
Essa perspectiva é extremamente valiosa. A história não é formada apenas pelos grandes acontecimentos políticos. Ela também está presente nos objetos que as pessoas utilizavam diariamente.
Uma toga limpa pode parecer insignificante quando comparada a um aqueduto ou a um templo.
Mas, para quem precisava vestir aquela toga todos os dias, a existência de profissionais capazes de limpar e conservar o tecido era uma questão prática.
E justamente essas pequenas necessidades ajudam a explicar como uma sociedade urbana funcionava.
O que essa prática ensina sobre sustentabilidade na Antiguidade?
É possível fazer uma comparação interessante com o mundo atual.
Hoje falamos constantemente sobre reciclagem, reaproveitamento de resíduos e economia circular.
Os romanos não utilizavam esses termos, evidentemente.
Mesmo assim, determinadas atividades econômicas aproveitavam materiais que poderiam ser descartados. A urina é um exemplo particularmente curioso.
Em vez de ser tratada apenas como resíduo, ela podia ser coletada e direcionada para uma atividade produtiva. Estudos sobre Pompeia e outras cidades romanas mostram como essa coleta estava relacionada à indústria têxtil.
Isso não significa que a sociedade romana fosse “sustentável” no sentido moderno. Seria um exagero.
O mundo romano também produzia enormes quantidades de resíduos, consumia recursos naturais e enfrentava problemas de saneamento.
Ainda assim, o caso da urina demonstra que sociedades antigas frequentemente encontravam maneiras criativas de transformar aquilo que parecia inútil em algo economicamente valioso.
Essa é uma das lições mais interessantes escondidas nessa história.
A curiosidade histórica por trás do “dinheiro não tem cheiro”
A história da tributação da urina ficou famosa principalmente por causa de Vespasiano.
A associação com a frase equivalente a “dinheiro não tem cheiro” transformou o episódio em uma das anedotas mais conhecidas sobre o imperador.
Porém, devemos ter cuidado para não tratar a história como se fosse uma transcrição literal de uma conversa.
As fontes antigas chegaram até nós através de tradições literárias, e a forma popular da frase foi construída e transmitida ao longo do tempo.
O fato essencial é que a utilização econômica da urina era suficientemente significativa para aparecer no contexto da política fiscal atribuída a Vespasiano. E isso é muito mais interessante do que a simples piada.
O episódio demonstra como o Estado romano conseguia observar atividades econômicas aparentemente pequenas e transformá-las em oportunidades de arrecadação.
Então, por que os romanos usavam urina para lavar roupas?
Depois de toda essa história, podemos responder à pergunta de forma direta.
Os romanos usavam urina para lavar roupas porque a urina envelhecida podia fornecer compostos alcalinos, especialmente amônia, úteis para remover gordura e sujeira dos tecidos.
Ela era misturada com água e, dependendo do processo, podia ser utilizada junto com outros materiais, como substâncias alcalinas e terra de pisoeiro.
Os trabalhadores das fullonicae colocavam os tecidos nos tanques e pisavam sobre eles repetidamente para ajudar na limpeza. Depois, as roupas eram enxaguadas, secas e submetidas a procedimentos de acabamento.
A prática era especialmente útil em uma sociedade que dependia bastante de tecidos de lã e que não dispunha dos detergentes modernos.
Mais importante ainda, a urina era relativamente fácil de obter. Ela podia ser coletada em recipientes públicos e transportada para as oficinas.
Assim, o que hoje enxergamos como um simples resíduo tornou-se parte de uma cadeia econômica que envolvia trabalhadores, comerciantes, oficinas e até tributação estatal.
A história, portanto, é muito mais profunda do que a curiosidade inicial.
Ela mostra a capacidade romana de observar o mundo, aproveitar recursos disponíveis e transformar necessidades cotidianas em atividades econômicas especializadas.
Conclusão
A pergunta “por que os romanos usavam urina para lavar roupas?” parece, à primeira vista, apenas uma curiosidade engraçada sobre hábitos estranhos da Antiguidade.
Mas, quando investigamos o assunto com mais atenção, encontramos uma história fascinante.
Encontramos química prática, engenharia urbana, trabalho especializado, escravidão, comércio, tributação e hábitos sociais.
As fullonicae mostram que os romanos possuíam sistemas sofisticados para tratar seus tecidos. A urina não era utilizada de maneira aleatória: fazia parte de um processo que envolvia diferentes materiais e várias etapas de trabalho.
Além disso, a arqueologia de Pompeia permite visualizar fisicamente algumas dessas oficinas, enquanto as fontes literárias ajudam a explicar suas funções.
Talvez a maior lição esteja justamente aí.
A História Antiga não precisa ser contada apenas através das guerras, dos imperadores e das grandes batalhas.
Às vezes, uma simples peça de roupa pode nos revelar mais sobre o funcionamento de uma sociedade do que imaginamos.
E, no caso romano, até aquilo que era descartado podia adquirir valor.
A próxima vez que você ouvir que os romanos usavam urina para lavar roupas, portanto, lembre-se: por trás dessa história aparentemente absurda existe uma combinação impressionante de conhecimento prático, organização urbana e economia.
E talvez seja justamente isso que torna a História tão fascinante: quanto mais investigamos os detalhes aparentemente estranhos do passado, mais percebemos que as sociedades antigas eram muito mais complexas do que normalmente imaginamos.
FAQ — Perguntas frequentes
Os romanos realmente usavam urina para lavar roupas?
Sim. Fontes antigas e evidências arqueológicas indicam que a urina era utilizada nas fullonicae, oficinas especializadas no tratamento e limpeza de tecidos. Pompeia preservou estruturas que ajudam a comprovar essa prática.
Por que a urina funcionava como produto de limpeza?
A urina contém ureia. Com o envelhecimento, processos bacterianos podem transformar a ureia em amônia, aumentando a alcalinidade da solução. A amônia possui propriedades úteis para remover materiais gordurosos, ajudando no tratamento dos tecidos.
Os romanos usavam apenas urina para lavar roupas?
Não. A urina fazia parte de um conjunto de materiais e procedimentos. As fontes e evidências mencionam água, substâncias alcalinas e diferentes tipos de terra utilizada no tratamento dos tecidos.
Como a urina era coletada?
Recipientes podiam ser instalados em áreas públicas para receber urina, que posteriormente era recolhida e encaminhada para atividades produtivas. Em algumas cidades, existem evidências de conexões entre instalações sanitárias e oficinas.
O imperador Vespasiano realmente criou um imposto sobre a urina?
Fontes antigas, especialmente Suetônio, associam Vespasiano à cobrança de um imposto relacionado à urina. O episódio ficou famoso e passou a simbolizar a ideia de que até resíduos poderiam ter valor econômico.
O cheiro da urina permanecia nas roupas?
Não podemos afirmar exatamente como todas as roupas cheiravam. O processo incluía enxágue, secagem e outras etapas de acabamento.
Um experimento moderno publicado em 2026 encontrou ausência de odor detectável após secagem em uma amostra tratada com urina envelhecida, embora isso não permita reconstruir todos os processos romanos.
O que era uma fullonica?
Era uma oficina romana especializada no tratamento de tecidos. O trabalho podia incluir lavagem, desengorduramento, acabamento, escovação e tratamento de roupas usadas e tecidos recém-produzidos.
Os romanos tinham sabão?
A limpeza romana utilizava diferentes substâncias e técnicas. A ausência do moderno sistema de detergentes fazia com que materiais alcalinos e outros agentes desempenhassem funções importantes no tratamento dos tecidos.
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Editado e revisado
Profº J. Inácio

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