Houthis: o grupo que desafia Israel e os EUA

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 Houthis: o grupo que desafia Israel e os EUA

Existe uma pergunta que ajuda a entender a importância dos Houthis no Oriente Médio atual: como um grupo armado surgido em uma das regiões mais pobres e instáveis do planeta conseguiu colocar Israel, os Estados Unidos e até o comércio internacional em estado de alerta?

A resposta não está apenas nos mísseis ou nos drones utilizados pelo movimento.

Ela está na história do Iêmen, na localização estratégica do país, na rivalidade entre Irã e seus adversários e em uma maneira diferente de fazer guerra. Os Houthis descobriram que não precisam possuir um exército capaz de derrotar uma superpotência para causar enormes problemas a ela.

E essa talvez seja a parte mais interessante dessa história. Os Estados Unidos possuem uma das forças militares mais poderosas já criadas. Israel possui tecnologia militar extremamente avançada. A Arábia Saudita tem enormes recursos financeiros.


Os Houthis não possuem nada parecido. Mesmo assim, conseguiram obrigar todos esses países a prestar atenção no que acontece no Iêmen. Para entender como isso foi possível, precisamos voltar algumas décadas.

O Iêmen antes dos Houthis

O Iêmen nunca foi um país politicamente simples. Localizado no extremo sul da Península Arábica, o país possui uma história marcada por disputas tribais, diferenças regionais, conflitos religiosos e rivalidades pelo controle do poder.

Durante boa parte do século XX, o território iemenita esteve dividido entre diferentes estruturas políticas.

Grupo de homens armados em uniformes militares camuflados reunidos em área urbana, com um indivíduo em primeiro plano segurando um lançador de foguetes.
Créditos: Direitos autorais: Photo: Euronews
No norte existia a República Árabe do Iêmen. No sul, a República Democrática Popular do Iêmen, de orientação socialista.

A unificação aconteceu em 1990. Mas unir dois territórios em um mapa não significa necessariamente construir uma sociedade politicamente unificada.

As diferenças continuaram. O governo central enfrentava oposição de diferentes grupos e regiões. A economia permanecia frágil e uma parcela significativa da população vivia em condições extremamente difíceis.

Foi nesse ambiente que começou a crescer um movimento que posteriormente seria conhecido pelo sobrenome de sua família mais importante: os Houthi.

O nome pode parecer relativamente desconhecido para quem acompanha pouco a política internacional.

Hoje, entretanto, basta olhar para o Mar Vermelho para perceber como esse nome ganhou peso.

Quem são os Houthis?

Os Houthis surgiram no norte do Iêmen entre comunidades zaiditas. O zaidismo é uma corrente do islamismo xiita com características próprias e uma longa história na região. Durante séculos, comunidades zaiditas tiveram enorme influência política no norte do Iêmen.

Com as mudanças políticas ocorridas no país, porém, parte dessa população passou a enxergar o governo central como uma estrutura distante de suas necessidades e interesses.

Na década de 1990, Hussein Badreddin al-Houthi ganhou destaque ao organizar um movimento de mobilização religiosa e política.

A organização inicialmente estava muito distante da força militar que possui atualmente. Era, sobretudo, um movimento de contestação. Mas as relações com o governo de Ali Abdullah Saleh foram se deteriorando.

A tensão acabou transformando-se em conflito armado. A partir de 2004, o governo enfrentou uma série de guerras contra os seguidores de Hussein al-Houthi.

Hussein acabou morto. Mas sua morte não encerrou o movimento. A situação produziu justamente o efeito contrário.

Os seguidores passaram a enxergá-lo como símbolo de resistência, enquanto a organização ganhou experiência e começou a construir uma estrutura militar própria.

É aqui que começa uma das transformações mais importantes da história recente do Iêmen. Os Houthis deixaram de ser apenas um movimento de contestação. Começaram a se transformar em uma força capaz de disputar o próprio Estado.

Créditos da imagem. Direitos autorais: Crown Copyright 2011, NZ Defence Force – Some Rights Reserved

A revolta que mudou o destino do Iêmen

Em 2011, uma onda de protestos atingiu vários países árabes. A chamada Primavera Árabe chegou também ao Iêmen.

Ali Abdullah Saleh, que havia governado o país durante décadas, acabou deixando o poder. Mas sua saída não resolveu o problema. O novo governo não conseguiu estabilizar o país.

Economia, pobreza, desemprego, disputas regionais e rivalidades políticas continuaram presentes. Os Houthis aproveitaram esse cenário. Em 2014, suas forças avançaram sobre Sanaã, a capital. A conquista da cidade mudou completamente o equilíbrio de poder.

De repente, aquele movimento que havia surgido em uma região específica do norte estava no centro da política nacional.

O governo perdeu espaço. O país entrou em uma nova fase de conflito. E então apareceu um novo personagem: a Arábia Saudita.

Por que a Arábia Saudita entrou na guerra?

Para os sauditas, a expansão dos Houthis não era apenas um problema interno do país vizinho. O Iêmen faz fronteira diretamente com a Arábia Saudita. Além disso, os Houthis apresentavam uma postura extremamente hostil em relação a Riad. Havia outro elemento ainda mais delicado.

A Arábia Saudita é uma das principais potências do mundo árabe e mantém uma relação estratégica com os Estados Unidos. Os Houthis, por outro lado, aproximavam-se cada vez mais do Irã.

A guerra do Iêmen começou então a adquirir características de uma disputa muito maior. Não era mais apenas:

Houthis contra governo iemenita.

Passou a envolver: 

Houthis, Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos e diferentes grupos políticos e militares do próprio Iêmen.

Em 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita iniciou uma intervenção militar. A expectativa era que a superioridade aérea e financeira dos sauditas permitisse derrotar rapidamente os Houthis.

Não aconteceu. A guerra se prolongou. E isso acabou sendo decisivo para o futuro do movimento.

A guerra ensinou os Houthis a lutar contra adversários muito maiores

Uma das maiores vantagens que um grupo armado pode adquirir durante uma guerra prolongada é experiência. Os Houthis passaram anos sendo bombardeados.

Precisaram aprender a esconder equipamentos, movimentar tropas, proteger seus comandantes e utilizar armas de maneira cada vez mais eficiente. Também aprenderam a explorar as vulnerabilidades de seus adversários.

Não tinham condições de enfrentar uma força militar moderna em uma batalha convencional. Então fizeram algo muito mais inteligente. Mudaram as regras do jogo.

Em vez de tentar destruir o inimigo no campo de batalha tradicional, passaram a buscar pontos onde uma força menor poderia produzir um impacto desproporcional.

Foi assim que mísseis e drones ganharam importância. Também foi assim que o território marítimo começou a assumir um papel fundamental.

O segredo está no mapa

Olhe para o mapa do Oriente Médio. O Iêmen está localizado ao sul do Mar Vermelho. Do outro lado está a África. Na extremidade norte do Mar Vermelho fica o Canal de Suez.

E o Canal de Suez é uma das principais portas de entrada marítima entre a Ásia e a Europa. Isso significa que o Iêmen está próximo de uma das rotas comerciais mais importantes do planeta.

Os Houthis perceberam o valor dessa posição. Não precisam controlar o oceano. Não precisam possuir uma grande frota.

Precisam apenas ser capazes de tornar aquela região perigosa. Essa diferença é enorme. Um navio comercial não precisa ser destruído para representar um problema para seu proprietário.

Se o capitão considerar a rota perigosa, a embarcação pode simplesmente procurar outro caminho. E o outro caminho é muito mais longo.

Em vez de atravessar o Mar Vermelho e passar pelo Canal de Suez, o navio pode precisar contornar boa parte da África.

O resultado aparece em combustível, tempo, seguro e logística. É um exemplo perfeito de como uma organização militar relativamente pequena pode produzir consequências econômicas muito maiores que seu tamanho.

A relação dos Houthis com o Irã

Aqui existe outro ponto que costuma ser simplificado demais. É comum ouvir que os Houthis são simplesmente “aliados do Irã”.

Isso é verdade, mas não conta toda a história. O Irã encontrou nos Houthis um parceiro extremamente útil.

O movimento possui uma posição estratégica excepcional e consegue pressionar adversários iranianos sem que Teerã precise entrar diretamente em todos os confrontos. Para os Houthis, a aproximação também trouxe vantagens.

Armas, conhecimento tecnológico, treinamento e apoio político aumentaram significativamente suas capacidades. Mas os Houthis não começaram por causa do Irã. Eles possuem uma história própria.

Suas raízes estão no próprio Iêmen. Esse detalhe é importante porque ajuda a compreender por que o movimento consegue sobreviver mesmo quando sofre pressão militar externa.

Não se trata simplesmente de uma organização estrangeira operando em território iemenita. Existe uma estrutura política, social, religiosa e militar construída ao longo de décadas. O Irã ampliou essa capacidade. Não a criou do zero.

Gaza mudou novamente o papel dos Houthis

A guerra entre Israel e Hamas provocou outra transformação. Os Houthis passaram a apresentar suas ações como parte da luta em apoio aos palestinos. Foi uma decisão política extremamente importante.

O grupo conseguiu conectar uma questão local do Iêmen com um dos assuntos mais sensíveis de todo o Oriente Médio. A partir daí, os ataques contra Israel ganharam enorme valor simbólico.

Mas havia uma consequência ainda maior. Os Houthis começaram a atacar ou ameaçar embarcações no Mar Vermelho. Isso transformou um conflito que já era regional em uma questão internacional.

Imagine a situação. Uma guerra acontece em Gaza. Um grupo armado no Iêmen decide intervir. Navios comerciais que atravessam o Mar Vermelho começam a considerar aquela região perigosa.

Empresas internacionais alteram suas rotas. Os Estados Unidos enviam navios de guerra para proteger a navegação. Israel passa a considerar uma ameaça que vem de milhares de quilômetros de distância.

É uma cadeia de acontecimentos que parece improvável. Mas foi exatamente isso que tornou os Houthis tão importantes.

Por que os Houthis atacam Israel?

Existem diferentes motivos. O primeiro é ideológico. Desde sua origem, o movimento mantém uma postura fortemente contrária a Israel e aos Estados Unidos.

O segundo é regional. A aproximação com o Irã colocou os Houthis dentro de uma rede de organizações que se opõem à influência israelense e americana no Oriente Médio.

O terceiro é político. A causa palestina possui enorme força simbólica na região. Ao apresentar-se como defensor dos palestinos, o movimento consegue aumentar sua legitimidade entre determinados setores da população árabe e muçulmana.

Existe ainda um quarto elemento. Poder. Quando um grupo consegue atacar um adversário muito mais poderoso, sua imagem dentro e fora do país pode crescer.

Isso não significa necessariamente que todos os iemenitas apoiem os Houthis. Significa que o movimento consegue utilizar o confronto externo para fortalecer sua própria narrativa política.

Israel enfrenta uma ameaça diferente

Israel está acostumado a lidar com ameaças próximas. Gaza está ao lado. O Líbano está ao norte. A Síria também está próxima. O Iêmen é diferente. A distância é enorme. Ainda assim, os Houthis conseguiram desenvolver armas capazes de atingir alvos muito distantes.

Isso cria um novo problema para os israelenses. A ameaça não depende mais apenas da existência de grupos armados nas fronteiras imediatas. Um movimento localizado na Península Arábica pode tentar atingir território israelense.

Israel possui sistemas avançados de defesa aérea. Mas nenhuma defesa é completamente gratuita. Cada ameaça exige detecção.

Cada lançamento precisa ser analisado. Cada possível ataque pode obrigar a utilização de sistemas de interceptação. É uma disputa na qual o atacante procura gastar pouco para obrigar o defensor a gastar muito. Essa é uma das características mais interessantes da guerra moderna.

O desafio aos Estados Unidos é ainda mais estratégico

Se os Houthis atacassem apenas Israel, Washington poderia interpretar a questão principalmente como parte da guerra regional. Mas quando navios comerciais começam a ser ameaçados, a situação muda.

A liberdade de navegação é uma questão estratégica para os Estados Unidos. Washington possui interesses econômicos e militares espalhados por várias regiões do planeta.

Permitir que um grupo armado estabeleça uma espécie de zona de risco em uma das principais rotas marítimas internacionais cria um precedente complicado. Por isso, os Estados Unidos passaram a atacar posições houthi.

O problema é que bombardear um grupo como os Houthis não é o mesmo que derrotá-lo. Você pode destruir instalações. Pode eliminar lançadores. Pode atingir depósitos. Pode interromper redes de comunicação.

Mas isso não significa necessariamente que a organização desapareceu. E é exatamente aí que começa o grande dilema americano.

A guerra assimétrica explica muita coisa

Imagine dois adversários. De um lado, uma potência militar com aviões sofisticados, satélites, navios de guerra e sistemas avançados de inteligência.

Do outro, um grupo armado que utiliza equipamentos muito mais baratos. O segundo adversário não precisa possuir a mesma capacidade.

Precisa apenas encontrar maneiras de obrigar o primeiro a reagir. Esse é o coração da guerra assimétrica.

Os Houthis são um exemplo bastante claro disso. Um drone relativamente barato pode exigir uma resposta militar muito mais cara. Um ataque limitado pode obrigar navios de guerra a permanecerem durante semanas em uma região.

Uma ameaça pode levar uma empresa a alterar uma rota comercial. O objetivo, portanto, não é necessariamente destruir o inimigo. É aumentar o custo da ação dele.

O Mar Vermelho virou uma arma estratégica

É difícil encontrar exemplo melhor de como a geografia pode funcionar como uma arma. Os Houthis não controlam o comércio mundial.

Mas estão próximos de uma passagem utilizada por uma enorme quantidade de embarcações. Isso lhes dá influência.

É como estar diante de uma estrada extremamente movimentada. Você não precisa possuir todos os carros que passam por ela para influenciar o trânsito.

Basta conseguir criar um obstáculo. É exatamente essa lógica que tornou o Mar Vermelho tão importante na estratégia houthi.

E existe uma consequência econômica que muitas vezes passa despercebida. Quando uma embarcação precisa contornar a África, a viagem aumenta consideravelmente.

Isso significa mais combustível. Mais tempo. Mais custos operacionais. Mais riscos. Mais despesas de seguro. No final, parte dessa conta pode chegar ao consumidor.

Um conflito aparentemente distante pode, portanto, influenciar cadeias de abastecimento que chegam a países do outro lado do mundo.

Mas os Houthis não são invencíveis

É importante não cair no exagero. Os Houthis conseguiram demonstrar capacidade militar significativa, mas continuam muito abaixo dos Estados Unidos em poder convencional.

Também não possuem capacidade para simplesmente destruir Israel ou ocupar território israelense.

Sua força está em outra coisa. Está na capacidade de resistir. Está na capacidade de lançar ataques inesperados. Está na possibilidade de dispersar seus recursos. Está na geografia.

E está, principalmente, na capacidade de transformar uma guerra local em um problema internacional.

Essa diferença é fundamental. Dizer que os Houthis “podem derrotar os Estados Unidos” seria uma análise pouco realista.

Dizer que eles não representam uma ameaça porque são muito menores também seria um erro. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo:

os Houthis são militarmente muito inferiores aos Estados Unidos e ainda assim conseguem criar problemas estratégicos importantes para Washington.

Por que derrotar os Houthis é tão difícil?

A resposta passa por vários fatores. 

O primeiro é o terreno. O Iêmen possui regiões montanhosas que favorecem forças acostumadas a operar localmente. 

O segundo é a experiência. Os Houthis lutam há muitos anos.

O terceiro é a descentralização.

Uma organização que não depende de uma única base pode sobreviver à destruição de instalações específicas. 

O quarto é o apoio externo.

A relação com o Irã aumentou a capacidade tecnológica do movimento.

O quinto é a motivação política.

Os Houthis possuem uma narrativa capaz de apresentar seus adversários como forças estrangeiras que tentam interferir no destino do Iêmen.

E existe ainda o fator econômico.

Manter uma grande campanha militar contra um grupo irregular custa muito dinheiro. O adversário menor, por outro lado, pode sobreviver gastando uma fração desse valor. Essa diferença de custo é uma das armas mais importantes dos Houthis.

E a população do Iêmen?

Aqui está uma parte da história que não pode ser esquecida. Por trás da disputa entre Houthis, Estados Unidos, Israel, Irã e Arábia Saudita existe uma população que passou anos convivendo com guerra, pobreza e insegurança.

O Iêmen já enfrentava enormes dificuldades antes da atual escalada regional. Hospitais, infraestrutura, abastecimento de alimentos e serviços básicos foram afetados por anos de conflito.

Para muitos iemenitas, portanto, a discussão sobre mísseis e geopolítica não é abstrata. É uma questão de sobrevivência. Esse é um dos grandes paradoxos do conflito.

Os Houthis ganharam importância internacional justamente enquanto o próprio Iêmen continua enfrentando uma enorme crise humanitária. Quanto mais a região se militariza, maior é o risco de que a população pague novamente a conta.

Os Houthis fazem parte de uma guerra maior?

Em certo sentido, sim. O Oriente Médio atual possui uma série de conflitos conectados. Irã e Israel disputam influência. Israel enfrenta organizações armadas em diferentes frentes.

Os Estados Unidos procuram proteger seus aliados e seus interesses estratégicos. A Arábia Saudita tenta preservar sua segurança regional.

E grupos como os Houthis procuram aumentar seu espaço político e militar. É como se existissem vários tabuleiros funcionando simultaneamente. Uma movimentação em Gaza pode provocar uma reação no Líbano.

Uma ação no Iêmen pode afetar o Mar Vermelho. Uma tensão entre Irã e Israel pode repercutir sobre grupos aliados de Teerã. E um ataque contra navios pode levar os Estados Unidos a uma nova operação militar.

Essa interligação explica por que o Oriente Médio é tão difícil de analisar. Não existem conflitos completamente isolados.

O que os Houthis realmente querem?

Essa talvez seja a pergunta mais difícil. O movimento quer manter e ampliar seu poder dentro do Iêmen.

Quer preservar sua influência política. Quer impedir que seus adversários retomem completamente o controle do país.

Ao mesmo tempo, quer projetar sua imagem como força de resistência contra Israel e os Estados Unidos. Esses objetivos podem se complementar.

Quanto mais importante o movimento se torna internacionalmente, maior pode ser sua capacidade de negociação dentro do próprio Iêmen.

Por isso, os ataques externos não devem ser analisados apenas como operações militares. Eles também possuem uma dimensão política.

Cada míssil lançado carrega uma mensagem. Cada ameaça contra um navio produz uma reação. E cada reação pode ser utilizada pelos Houthis para reforçar sua narrativa.

O futuro do conflito

O grande problema é que não existe uma solução militar simples. Os Estados Unidos podem destruir equipamentos. Israel pode interceptar mísseis. A Arábia Saudita pode reforçar sua fronteira.

Mas nenhuma dessas medidas resolve automaticamente os problemas políticos que deram origem ao poder houthi. Enquanto o Iêmen continuar dividido, enquanto houver disputas pelo poder e enquanto os diferentes atores externos continuarem envolvidos, os Houthis terão espaço para sobreviver.

A situação também dependerá do que acontecer entre Israel e seus adversários regionais. Se a tensão diminuir, os Houthis podem perder parte da justificativa para manter determinados ataques.

Se a tensão aumentar, o contrário pode acontecer. E existe o fator Irã. Quanto mais intensa for a rivalidade entre Teerã e Washington ou entre Irã e Israel, maior será a importância estratégica dos parceiros iranianos espalhados pela região.

Nesse cenário, os Houthis continuarão sendo uma peça importante.

O verdadeiro poder dos Houthis

No fim das contas, a história dos Houthis não é simplesmente a história de um grupo armado que possui mísseis.

É a história de como geografia, política, tecnologia e guerra assimétrica podem transformar uma organização relativamente pequena em um ator internacional.

Os Houthis começaram como um movimento regional. Depois tornaram-se uma força importante dentro da guerra civil iemenita. Em seguida passaram a desafiar a Arábia Saudita.

Mais tarde começaram a ameaçar a navegação internacional. E finalmente passaram a confrontar diretamente Israel e os Estados Unidos. Isso não significa que tenham se tornado uma superpotência. Muito pelo contrário.

Sua importância vem justamente do fato de conseguirem produzir efeitos muito maiores do que seu tamanho sugeriria. Essa é a grande lição. No Oriente Médio, tamanho nem sempre determina influência.

Às vezes, basta estar no lugar certo, possuir uma estratégia adequada e saber explorar as vulnerabilidades de adversários muito mais poderosos.

E os Houthis aprenderam exatamente isso. O futuro dirá se conseguirão transformar essa capacidade militar em poder político duradouro.

Mas uma coisa já está clara:

o que acontece no Iêmen deixou de ser apenas um problema do Iêmen.

Hoje, quando um grupo armado no sul da Península Arábica consegue influenciar Israel, Estados Unidos, Arábia Saudita, Irã e uma das principais rotas comerciais do planeta, estamos diante de um dos exemplos mais claros de como os conflitos do Oriente Médio estão profundamente conectados.


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FAQ — Perguntas frequentes

Quem são os Houthis?

Os Houthis são um movimento político e militar originado no norte do Iêmen, ligado historicamente ao zaidismo. Atualmente, controlam importantes áreas do país e possuem uma estrutura militar capaz de realizar operações de longo alcance.

Por que os Houthis enfrentam Israel?

O movimento possui uma longa postura de oposição a Israel e utiliza a questão palestina como parte central de sua narrativa política. Desde a guerra em Gaza, essa posição ganhou ainda mais importância.

Os Houthis são aliados do Irã?

Sim. O Irã mantém uma relação próxima com os Houthis e contribuiu para ampliar suas capacidades militares. Entretanto, o movimento possui origem, interesses e estrutura próprios dentro do Iêmen.

Por que os Houthis atacam navios?

Os ataques e ameaças contra embarcações estão relacionados à estratégia do grupo de pressionar Israel e seus aliados e demonstrar capacidade de interferir em uma importante rota marítima internacional.

Por que o Mar Vermelho é tão importante?

Porque é uma das principais rotas marítimas entre a Ásia e a Europa. Ao norte do Mar Vermelho está o Canal de Suez, tornando a região extremamente importante para o comércio mundial.

Os Houthis conseguem derrotar os Estados Unidos?

Não em uma guerra convencional. A vantagem militar americana é muito superior. O objetivo houthi, porém, não precisa ser derrotar os Estados Unidos, mas aumentar o custo político, militar e econômico de sua atuação na região.

Os Houthis controlam todo o Iêmen?

Não. O país permanece dividido entre diferentes forças políticas e militares, e os Houthis controlam principalmente áreas importantes do norte e oeste.

Por que os Houthis são considerados uma ameaça internacional?

Porque sua localização permite ameaçar rotas marítimas internacionais e porque seu arsenal alcança distâncias muito superiores ao território sob seu controle.

O conflito pode provocar uma guerra maior?

Sim. Uma escalada envolvendo Houthis, Israel, Estados Unidos, Irã ou outras forças regionais pode abrir novas frentes de conflito e aumentar a instabilidade no Oriente Médio.

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Editado e revisado por

Profº J. Inacio

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